"A Queda dum Anjo"
Eu já tinha decidido não voltar a falar de obscenidades. Alhear-me delas, ignorá-las, esquecê-las, apagá-las… demasiado Ibsen para o meu gosto aligeirado das coisas.
Ontem – a meio de uma conversa amena e agradável – a pergunta surgiu, casualmente: "Acha que o Souto Moura vai cair?". Respondi um "acho que não", em tom talvez demasiado seco porque aturdido por esse pesadelo relembrado. O meu interlocutor fez a ponte elegante para outro tema, depois de algumas considerações sensatas.
O assunto morreu mas tinha renascido a minha náusea. O Souto Moura não cai porque – neste "God forsaken place" – só os anjos caiem.
Neste contexto, pouco bíblico, os anjos não são apenas os puros ou sequer os mensageiros… são, também e sobretudo, os burros descartáveis, os desbocados "salvados" dos acidentes de percurso e os néscios que, por falta de asas compridas – ou adequado golpe de asa – não têm as costas suficientemente quentes.
Ora, o Souto Moura não me parece caber nesta classificação. Assim, por muito que queira acreditar na integridade desse homem (e não tenho motivos objectivos para supor o contrário), surpreende-me a falta de pudor da sua inamovibilidade.
No decorrer da conversa, lembrei-me de uma passagem de Camilo Castelo Branco – talvez porque tão caro ao meu excelente interlocutor – e teimo em escrevê-la, apesar das citações caírem tão mal como cicuta nos tempos que correm:
"Sei que o leitor ficou passado com esta notícia...Quer que se limpe da fronte deste homem o estigma de um pensamento adúltero. Honrados desejos!
Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui à minha beira o demónio da verdade, …o demónio da verdade que não consentiu ao Sr. Alexandre Herculano dizer que Afonso Henriques viu coisas extraordinárias no céu de campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Elói não adulterou em pensamento!..."
Sem esperança nos demónios da verdade – oculta nas entrelinhas das gravações hoje "apagadas" pelo "Correio da Manhã" - tenho por certo que Souto Moura adulterou, pelo menos, em pensamento e adultera, pela permanência, o cargo que "desempenha".
Adultera, nem que seja pelo facto de aproveitar as gastíssimas "…últimas consequências" de Sampaio como garante de preparação de um conveniente pára-quedas que lhe permita uma suave "aterragem" em qualquer outro lugar.
Impunha-se-lhe – se fossem verdadeiramente dignos os seus propósitos – que, não caindo entre tantos atropelos, se atirasse da janela mais próxima do edifício desmoronado.
Não o tendo feito, desonroso, já cai de podre.
No entretanto, "eles andem aí…" sedentos de sangue e, como insinuou – bastante bem – o Barnabé, os estafetas da PGR, PJ, DIAP e quaisquer outros anjos que se cuidem.
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